Ela parou… admirando-se por se sentir cansada e ligeiramente transpirada. Surpreendida olhou para o horizonte e detectou a ligeira mudança de luz que nos anuncia a saída da madrugada e a entrada da alvorada, distraída olhou para os pés, os sapatos de salto que tinha colocado tinham sido largados no inicio da subida da serra de Sintra, para aí há… quanto tempo mesmo?
Olhou para o relógio e riu-se, não admira que se sentisse cansada estava a andar na serra há 4 horas já!
Quem diria que a noite perfeita se iria transformar num pesadelo que nem ela sabia que teria susceptibilidade a ter…
Suspirou sentando-se numa árvore caída na beira do precipício pensando onde raio estaria, sentindo a convicção que não tinha o mínimo interesse em saber… não era uma criatura da noite mas hoje abraçava-a com vontade.
Fechou os olhos lembrando-se da cena do início da noite a chegada do seu príncipe encantado… sempre tão bem apossado (como gostava de dizer a sua avó), tão cavalheiro nos seus modos finos… a sua cara fechada a que já ela se tinha habituado… nada a tinha preparado para levar com a frase tipo, tantas vezes já dita… milhentas vezes ouvida por tantos no mundo.
“Preciso de dar um tempo. Não és tu sabes sou eu! Estou a sentir-me pressionado e preciso de pensar!”
Consiga sentir ali, o murro no estômago que lhe tirou o ar na altura.
“Não podes estar a usar essa frase cliché comigo… vá lá! Comigo? Diz as coisas como realmente são. Não sou uma idiota que vai fazer um escândalo ou pedir-te para ficar!”
“Não têm motivo nenhum mais que aquilo que te disse!”
Nunca pensou sentir-se tão pequena… ela a imperturbável… o bloco de gelo como lhe chamavam na faculdade perdeu naquela altura o chão dos pés.
Valeu-lhe anos de controlo facial, obrigação na sua vida laboral para não se desmanchar naquele instante…
Voltou ao presente com um arrepio… a noite não estava fria mas depois de 4 horas de exercício forçado sentia agora o corpo arrefecer gradualmente.
Olhou em redor sentindo-se vazia… inútil… dolorosamente só.
Mas manteve a sua dignidade pensou cinicamente… tal qual uma qualquer heroína de Hollywood dos filmes da década de cinquenta.
Teria ganho o Óscar… nem um brilho de tristeza no olhar quando baixou os olhos de pestanas longas para o cálice de vinho fresco que tinha acabado de ser servido… observou as mãos… o cérebro a mil… levantou-se e na sua voz rouca pausada disse:
“Tens todo o tempo do mundo para pensar no que quiseres e podes começar já agora no jantar!”
“Vais deixar-me a comer sozinho - soluçou ele – sabes que detesto fazer isso!”
Sorriu para ele, naquele sorriso que sabia destruir qualquer oponente numa reunião de negócios…
“Não querias tempo? Aqui o tens!”
E saiu na sua altivez que a tão bem caracteriza mas tão pouco diz de si… e andou até chegar ao cimo de onde se encontrava agora.
Sentindo-se metade de si mesma e odiando-se por isso…
Podia até ouvir a voz da sua mãe que tantas vezes lhe dizia: “Não cuspas para o ar que qualquer dia cai-te na cara!”
-Na mouche mãe… mesmo no meio da testa – Sussurrou para ninguém ouvir.
Nunca imaginou que um dia cairia nessa mesma roda dos sofredores por amor… até já as conseguia ouvir grasnando os conselhos que tantas vezes também ela recitou:
- Ele não vale a pena…não te merece… segue a tua vida e vais ver que o certo está mesmo ali na esquina há tua espera.
Pois deve! Estar ele e a cavalaria toda atrás… a fazer filinha para levarem um pontapé no cú que é o que me apetece no momento…
De repente deu por si a pensar:
“-Gostava de conseguir chorar… morreu um amor não foi? Finito… certo? Então porque não o consigo chorar?!”
E no instante em que pensava isso o sol rompeu pela serra dando os bons dias ao mundo mais uma vez… e ela perdeu-se na beleza do inicio do dia longe do mundo e tal qual como as primeiras gotas de orvalho eram absorvidas pelo seu calor também a sua vontade de se entregar ao desespero desapareceu do seu peito…
Suspirou levantando-se do tronco sentindo os músculos doridos de uma noite de sono perdida e desceu da serra pensando como raio iria apanhar um táxi para casa descalça quando lhe saiu um palavrão da boca depois de ter acertado numa pedra que não tinha sido rápida o suficiente para evitar… e quando baixava os olhos para ver a sua agressora deu de caras com os sapatos que tinha abandonado no inicio da sua reclusão…
E enquanto se apoiava numa árvore e limpava os pés antes de o calçar deu de por si a pensar:
Pelo menos levaste um pontapé no rabo á pouco mas vais arranjadinha para casa!
E levantando a cabeça suspirou uma ultima vez e seguiu caminho pensando já na carrada de relatórios que teria a sua espera no escritório naquela manhã.
Nota:
Eis o meu regresso aos contos... espero que gostem!