Patrícia acordou eram 3 da madrugada, lentamente levantou-se e dirigiu-se a janela do quarto que tão bem conhecia de tempos anteriores mas onde nunca tinha dormido, espreitou para a rua adormecida enquanto tentava organizar os seus pensamentos. Suspirou e olhou para a figura adormecida na cama de onde se tinha levantado.
Abanou a cabeça pensando no que tinha feito. Asneira! Da grossa isso sim!
A sua lei tinha sempre sido não misturar amizade com sexo, então onde estava com a cabeça para ir para a cama com o seu melhor amigo?
Devia esbofetear-se a si mesma, isso sim, para deixar de ser parva!
Tinha ido a casa dele porque mesmo? Sim para lhe dizer que ia sair do país! E acabou aonde? Na cama com alguém que sabia ir partir o coração em bocadinhos.
Partir? Partir não explodir o coração.
Maldito toque sarcástico de Midas, porque será que onde punha a mão fazia merda?
Lentamente aproximou-se do amigo adormecido e acarinhou o cabelo que de tão negro parecia tantas vezes azul, a sua voz chegou-lhe aos ouvidos tão nítida que quase podia jurar que ele tinha acordado:
"Não vás! Fica comigo o meu amor chega pelos dois!"
E ao em vez de ter-se afastado o que fez? Aproveitou cegamente cada pedaço de carinho que ele tinha para dar, e se ele tinha para dar... quem olhava para ele não diria o amante que era. O toque era veludo na sua pele e só de pensar sentiu na alma e na carne a vontade de o acordar e repetir as duas horas em que tinham esquecido o mundo.
Obrigando-se a afastar-se voltou a janela e olhou para o carro que a aguardava quase como um carrasco pronto na forca para abrir o alçapão. As malas estavam no carro e olhando para o relógio deu-se conta que partia em 4 horas para o outro lado do oceano e que pela primeira vez em que tinha decidido a mudança a vontade era mínima de partir. Mentira! Pela primeira vez na vida questionava uma decisão sua e isso sim era a realidade dos factos.
Espreguiçou-se pensando no que poderia fazer para minimizar mais uma bosta na sua vida e verdade fosse dita já tinha feito a sua quota parte, mas esta era talvez a única que se arrependia.
Olhou para a mesinha cabeceira do seu amante (elevou a sobrancelha enquanto pensava quando foi que tinha deixado de o considerar amigo e tinha passado a ser amante) questionando-se se ainda mantinha a mania de faculdade de ter sempre um gravador com ele.
Abriu a gaveta o mais silenciosamente que podia e lá estava ele, muito bem a fazer tinha de ser rápida, pegou na roupa dirigiu-se a sala, gravou a sua mensagem vestiu-se e partiu.
...
Vasco abriu os olhos com o bater da porta, já estava acordado desde de que Patrícia se tinha levantado da cama, observando enquanto andava pelo quarto com o seu corpo de pantera atormentada, tinha quase parado de respirar quando ela lhe afagou o cabelo pensando que pelo menos daquela vez abriria a armadura e o ia acordar dando uma hipótese ao que podiam ser. Engano!
Afastou o lençol com raiva contendo as lágrimas que lhe teimavam em queimar os olhos, desde da faculdade que era assim, ele o melhor amigo ela a retro-escavadora que levava tudo a frente, convencida que fazia sofrer...sofrendo mais que qualquer pessoa que tinha a sorte de a ter na sua vida.
Dirigiu-se a sala sabendo antecipadamente o que ia lá encontrar, foi directo ao bar, assim como assim, depois de ter perdido o amor da sua vida e a sua melhor amiga bem que podia festejar com uma dor no estômago na manha que se avizinhava, sentou-se no sofá copo numa mão gravador na outra e preparou-se para ouvir:
"Deves neste momento estar a pensar que sou uma cabra da pior espécie, mas também na realidade isso não é novidade para ti, não vou começar por dizer que foi um erro a noite que tivemos, porque não estaria a ser real contigo nem comigo, foi bom aliás muito bom sentir-me no teus braços, mas sabes a manhã quando vêm acaba por levantar o véu das coisas e a vida que se poderia viver sem pensar em consequências vai embora como as gotas de orvalho nos primeiros raios de sol - pausa!
Ora f@da-se agora dei em poeta querem ver!
Desculpa continuando, a vida faz de nós o que somos e mesmo tu sendo o meu melhor amigo não sabes da minha a metade, não escolhi fechar-me aos sentimentos, mas depois de me ter entregue tantas vezes erradamente acabei por concluir que as minhas prioridades teriam de mudar drasticamente e tira-se esse teu sorriso sacana do rosto, tu sabes bem do que falo já tiveste também os teus pontapés no cú que te deixaram insuportável de aturar.Adiante!
Não te vou pedir desculpa pelo que sabias que ia acontecer. Sim eu sei o que sentes mas acredita em mim quando te digo que o amor que tu sentes é utópico, ninguém ama sem querer nada em troca, ninguém é obrigado a amar alguém que não sente o mesmo e antes que penses não foi sexo de consolo, foi entrega da minha e da tua parte!
Mas eu deixei de saber amar, se tivesse coragem talvez tu me pudesses voltar a ensinar, mas não tenho força nem vontade para rever a matéria.
Acredita nisto, foste, és e serás sempre o meu melhor amigo e o amante mais carinhoso que tive nem que apenas por umas horas.
Adeus!"
Já o sol ia alto quando Vasco se levantou da cadeira... sorria mesmo com os olhos inchados mas ao contrário de Patrícia não se teve de esconder por detrás dos óculos escuros toda a viagem de avião...
PS:
E pronto voltei aos contos, ando ausente da escrita eu sei e por isso talvez esteja um pouco enferrujada mas espero que gostem e que continuem por cá a Utena Maria está de volta e em força
Namasté