sexta-feira, 3 de junho de 2011

A minha temporada na Cripta

A minha vida daria um filme, de certeza que já ouviram esta frase de diferentes pessoas, em diferentes e em determinadas situações.
Bem eu não digo que a minha daria um filme, porque com 33 anos ainda tenho muito para ver mas a verdade é que pelo menos uma peça de teatro com meandros cómico/terror a puxar ao burlesco… tenho episódios bastante bizarros na minha vida… aliás não só bizarros como estranhos e assustadores.
Um dia destes enquanto “MSNejava” com uma amiga, demos por nós a falar num desses episódios da nossa vida, neste caso comum mas com doses de sofrimento diferentes.
Se ela esteve a “expiar” os seus pecados durante 8 anos no que chamaremos de “Cripta húmida e aterradora” eu estive lá perto de 2 anos.
A verdade é que vítimas do mesmo “Conde Drácula com tendências para apanhador de sabonete no chuveiro” criamos uma amizade e uma empatia como se já nos conhecêssemos há anos no primeiro momento que trocamos apresentações.
Deixem -vos descrever a peça de arte para que possam ter uma ideia mais ou menos clara de quem falo (o mais provável é ficar enjoada durante mês e meio mas valerá a pena deixar para a posterioridade este episodio da minha vida):
- Imaginem um homem alto… magro… com pouco ou nenhum cabelo já nos seus 60 anos… voz grave ligeiramente sedutora (porque todos os defeitos á parte ele sabia ser maravilhoso quando lhe interessava) com fama pelo menos imposta por ele de macho arrebatador de corações com uma legião de fãs atrás! Inteligente…pragmático… e insuportavelmente “alzamico” para tudo aquilo que requeresse a sua responsabilidade!
A informação que tinha dele era que era uma pessoa exigente, muito dura e que teria pelo menos deixado a chorar uma vez cada uma das minhas colegas que lá trabalhou!
Como seria costume na minha antiga empresa, fui literalmente lançada as hienas com este e com outros clientes. Por isso no meu primeiro dia de trabalho após uma semana de passagem onde não pus os globos oculares em cima da criatura dei por mim a caminho da Cripta… assustada não com o que ele poderia dizer ou fazer mas na forma como eu iria reagir se me desse a travadinha maluca…
Agora admirem-se qual não é o meu espanto quando no meio do meu horário laboral mergulhada entre contas…facturas… e invenções dignas do Prémio Nobel da Estupidez humana me entra o Sr. Duro e Exigente… Macho domador de legiões de mulheres a beira de um ataque por um pouco da sua atenção nestes preparos:
- Fato completo branco, sapatos brancos… chapéu branco… leque branco a abanar ritmicamente – se senta ao meu lado e enquanto cruza as pernas o que me permite ver a meiazinha a Castelo Branco me diz:
“Já cá esta? Mas que bem fico contente… sabe vim agora do Douro… as pessoas são tão… como dizer… sim retrógradas é a palavra, lá em cima. Veja lá que fui para a piscina de tanga e eles escandalizaram-se (isto tudo com sotaque tipicamente de Cascais sussurrado com ar ofendido) ”
Palmas para mim… aliás palmas não Óscar… aguentei-me firme e forte enquanto olhava para a minha colega de masmorra que já se encontrava naquela altura com um ar esverdeado e disse:
“Veja lá a mentalidade das pessoas… escandalizarem-se por um senhor como você na flor da idade ir de tanga para a piscina. Era fio dental?”
Pensando eu que ele se iria ofender e saltar então com a brutalidade… suspira e responde:
“Não credo que horror… era tanga pequena mas composta!”
A partir dai tudo ao que poderia vir do Conde Draculina para mim não era novidade, continuava a dizer que era um macho imparável mas sempre preocupado com os cremes de rostos (atenção mas de senhora porque tem a pele sensível) e sua aplicação se deveria ou não colocar corrector e outras situações “draculescas” que tal…
A verdade é que eu tal como a minha colega de Cripta nada tínhamos a ver onde a senhora gostava de dar ou levar  mas o que nos deixava irritadas e nauseadas era as conversas… a cara de pau quando nem uma vez nem duas nos desmentia na cara afirmando coisas que não dizíamos e não fazíamos…as que não comunicávamos quando tudo naquele poço húmido do inferno era feito por email… com a aplicação de read…
A sério ele era um caso raro a ser estudado, um atentado a sanidade de qualquer pessoa e só não saímos malucas de lá porque tínhamos os nossos escapes… os nossos ataques de parvoíce assolapada… de risadas incontroláveis… de momentos de apatia… de revolta com o Universo!
Quantas vezes saímos com a desculpa de fumar um cigarro e demos por nós a suspirar resignadas que não aguentávamos mais…que nos ia dar a louca e esquarteja-lo dentro do seu próprio recinto de tortura… chegamos a fazer cabeçalho:
“Sr. Fulano é encontrado morto na Cripta em plena Lisboa hoje pelas 18 horas… o cenário é tenebroso… as suposta assassinas estão ainda dentro do local enquanto lançam ao ar flores envoltas em papel crepe e gritam…. Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii Utenaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa……. Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii O………”
Porque era assim que ele nos chamava quando algo não estava de acordo com a ideia dele naquele dia depois de nos ter dado o aval assinado no dia anterior.
Para concluir posso dizer que por um lado foi um sítio que me deu gozo trabalhar porque me fez ter noção da minha capacidade de resistência… de “engolir sapos”… de conseguir dar a volta para conseguir mês após mês ter os valores necessários para ordenados… água…luz e telefones sem nunca comprometer o meu papel na empresa… sem nunca deixar que as responsabilidades do Conde passassem para mim…
Se eu chorei enquanto lá estive? … Sim maioritariamente de raiva... de stress … pelo acumular de pressão a que era sujeita… a que não podia responder em certas alturas… se ele soube ou se foi o causador directo? Não!
Se o conseguir colocar muitas vezes a ventilar com as minhas respostas? Imensas… se o deixei muitas vezes a beira de um ataque de nervos com todos os propósitos femininos… quase todos os meses… se cresci e evolui no meio daquele lodaçal de gente mesquinha… de baixeza… de pouca ou nenhuma consideração pelos outros… sem duvida e ainda tive um premio uma amizade bonita que se prolongou durante e se estende no após…
Posso considerar de facto a minha vida como antes cripta e depois cripta sem duvida… e se já antes era um osso duro de roer e dizia tudo como os malucos para além de ter a capacidade de suportar quase tudo… agora estou igual só que muito mais requintada…
E pronto fechamos a cortina…haveria tanto mais para contar… mas não se pode por de uma vez o jogo na mesa… e depois? Se eu precisasse de inspiração não teria onde a ir buscar….
=)
Há que ser como diria tão bem Conde Draculina polivalente e proactivo…

6 comentários:

Anónimo disse...

Tal como disseste e muito bem, doravante, vida tem obrigatoriamente de se dividir entre o ac (antes da cripta) e o dc(depois da cripta). eu como tua colega de sentença no tempo que lá passei não sou de facto a mesma, ninguém pode ficar indiferente a determinadas criaturas/ personagens/ aventesmas/ dementors... crescemos e hoje em "dc", somos pessoas melhores, "polivalentes e proactivas" LOLOLOL...e amigas, foi a tua presença lá que permitiu ultrapassar determinadas situações e o dia-a-dia da cripta/ jazigo... obrigada por esses momentos, e pela amizade que não esquecerei nunca!!!!! já agora (lol):é incrível como as tuas palavras retrataram na perfeição aquele senhor... és uma grande escritora menina... mesmo :-) continua!! queremos ler mais :-) bjssss

Utena disse...

Olga,

Os episódios são tantos e tão caricatos que teria de escrever
descansar alguns dias seguidos =)
Mas posso sempre ir voltando á personagem Draculina e ir contando os melhores...
Chamemos os Hits da Cripta versão remixada =)
Beijos

100 Pretensões disse...

realmente há cada episodio na nossa vida...
**

Utena disse...

100 Pretensões,

E só deste senhor dava para uma novela inteira!
Por mais exagerado que possa parecer era dificil de lidar com uma personagem que atirava as suas frustações para as mulheres...

Olívia Palito disse...

Há que tentar tirar o melhor proveito possível de todas as situações, sejam boas ou menos boas, no caso deu para fazer um post. Mas que ao ler este texto, assim de repente pensei que o homem era um sósia do Zé Castelo Branco, lá isso pensei. ;) :)

Beijão grande* (enviei-te agora um mailzito) :)

Utena disse...

Olívia,

Ele era pior que o Castelo porque fazia pela calada... amigo pela frente por detrás ui!
A raiva que ele têm as mulheres é uma coisa assustadora.
Beijinho

Já respondi =)